26 de set de 2016

Por que você não se retira? I


Procure se manter silencioso, aberto, sem conflitos internos, sem lutas – simplesmente uma presença... Uma respiração suave... Presente no momento presente... Sem pensamentos, sem memórias, sem desejos...
A mente é a noite da alma. Mas você acredita nessa sua mente que não lhe dá nada a não ser promessas. Ela lhe dá promessas, ela é maravilhosa nisso – em dar promessas.
E a mente nem mesmo é sua! Ela esteve em muitas mãos, milhões de vezes. O que é novo na sua mente? Tudo nela é velho, usado. O que é novo na sua mente? O que ela tem de original? Tudo nela é emprestado. Quando um homem compra um carro usado, velho, antes fica pensando milhões de vezes se deve adquiri-lo ou não. Mas você nunca pensa sobre o fato de que a sua mente já foi usada por muitos – foi usada pelos seus pais, professores, sacerdotes, políticos. Você nunca pensa que todos os seus pensamentos são emprestados, velhos, tolos.
Entretanto, você continua acreditando na mente porque ela aprendeu um truque, o truque das promessas. Ela vai prometendo: “Eu lhe darei tudo. Você precisa de Deus? Eu lhe darei Deus, basta você esperar. Faça isso e aquilo. Esforce-se, espere, reze e O darei a você”. Mas sempre adia: “Amanhã acontecerá”. E o amanhã nunca vem – o amanhã não pode vir. Tudo o que vem é sempre hoje. E tudo o que a mente faz é transferir todas as coisas para amanhã. Ela lhe promete – no futuro. Se é o céu, se é Deus, se é a liberdade que você quer – não importa -, ela sempre lhe promete: “no futuro”.
A meditação nunca lhe promete nada. Ela simplesmente lhe dá o aqui e agora.
A mente sempre adia; ela diz: “Não tenha pressa, nada pode lhe ser dado agora”. É necessário tempo. O caminho é longo. Muito tem de ser feito e, a menos que você faça, como chegará? A mente sempre separa os meios dos fins.
Mas na realidade, não há nenhuma separação.  Cada passo é a meta, cada momento é o nirvana. O presente é tudo que existe. O futuro é o que há de mais ilusório: é uma criação da mente. Mas você acredita na mente, e ela é maravilhosa: ela nem mesmo o desencoraja!
Você não fica nem mesmo desencorajado sobre a mente. Você continua ouvindo-a. A mente é a escuridão, a parte escura de seu ser onde nenhuma luz entra. Ela é a noite.

Você não está suficientemente cansado da mente? Então retire-se! A mente já não fez o suficiente? A mente já não criou caos suficiente em você? Por que você está apegado a ela? Qual esperança, qual promessa o mantém preso a ela? Ela tem enganado continuamente. Ela diz: “Lá – naquela meta, naquela casa, naquela posse, naquele carro, naquela mulher, naqueles bens – tudo está lá” – sua felicidade está lá!. Você então, caminha pra lá e quando chega nada vem para as suas mãos, exceto frustração. Todas as expectativas o conduzem à frustração. Todos os desejos, no fim, transformam-se numa grande tristeza.

E essa mente continua prometendo, prometendo, sem cumprir nenhuma promessa.
Esse é o problema. Você gostaria de recusar a mente, ela nunca cumpriu nada, mas você tem medo. Você não pode viver sem promessas, não pode viver sem esperanças.
Com a esperança você pode tolerar o presente de algum modo – a esperança é uma anestesia. O presente é miserável, doloroso; a esperança é alcoólica, é uma droga que o torna inconsciente o bastante para que você seja capaz de tolerar o presente.
Esperança significa que aqui e agora há descontentamento. Então, procure viver sem esperanças, sem expectativas, viva cada momento com plenitude, atento, desperto e você terá se retirado da mente.
Para um homem que conhece o interior está na hora de sair do sono, de sair da sua mente, porque a mente é que é o sono! Com os velhos padrões, com a rotina do seu dia a dia, acordar não é necessário e você passa o dia dormindo acordado, realizando suas tarefas de forma mecânica. Na verdade a luz sempre esteve acesa no seu interior... Ela está aí, mas você continua olhando para fora, A Luz interior é a sua natureza, sua própria vida. Não há necessidade de alguém oferecer qualquer vela para o seu interior.
Assim lembre-se: todos aqueles que lhe oferecem alguma coisa para o seu caminho, que lhe oferecem velas, estão dando algo para o lado de fora.
As velas podem iluminar seu caminho no mundo, mas nunca o Buda interior.

Então, saia da mente e penetre o seu espaço interior...

23 de set de 2016

Por que você não se retira? II


Para a maioria das pessoas o silêncio é um tédio.
Essas pessoas não suportam estar com elas mesmas. Quando não têm nada pra fazer ligam pra alguém, entram na internet, ligam a televisão, enfim... Fogem delas mesmas.
Elas permanecem na superfície, escolhem viver na superfície – e pensam que são livres. Acabam perdendo a oportunidade de se observarem, de conhecerem um pouquinho de si mesmas.

O mestre Zen Tokusan diz:
Retire-se! Se existe escuridão do lado de fora, algo pode ser feito. Se seu corpo está doente, você pode procurar um médico, mas se é o seu Ser que está doente, então nenhum médico poderá auxiliá-lo – você é que tem de fazer algo. O mestre pode apenas trazê-lo para este ponto em que apenas você pode fazer algo. Se alguém puder penetrar no seu interior, então esse lugar não é o seu interior, porque como pode alguém entrar no templo mais interior do seu Ser¿ Apenas você existe aí, na sua total solidão.
No seu mais íntimo ser, você é totalmente só – ninguém pode entrar aí. Nem mesmo um mestre iluminado pode entrar aí. No centro de um círculo pode haver apenas um ponto, não dois. Se existirem dois, ainda não é o centro.
Você está no ponto mais profundo do seu ser. O mestre pode auxiliá-lo a tornar-se alerta para esse fato. E, uma vez que você conheça o ponto mais profundo do seu ser, toda doença interior desaparecerá. Quando você aceitar sua total solidão, você será liberdade, não haverá nenhum apego – então, o amor poderá fluir!
Na realidade, apenas nesse momento o amor pode fluir, porque então o amor não é uma dependência, você não é dependente do outro. Quando você depende de outra pessoa, ao mesmo tempo se sente contra ela – porque tudo o que o torna dependente é seu inimigo, não pode ser seu amigo. Assim os amantes continuamente brigam, porque o amado é o inimigo. Quando você se torna dependente, não pode viver sem ele ou ela. Sua liberdade é destruída, e qualquer amor que destrói a liberdade mais cedo ou mais tarde transforma-se em ódio.
Apenas o amor que lhe dá liberdade nunca se transforma em ódio, é eterno. Assim, apenas um Jesus, um Buda, pode amar eternamente. Com eles, a mesma harmonia continua.
No verdadeiro pico, você está só. No mais íntimo centro do seu ser você é só. Quando você aceita isso, então o amor pode fluir como o Ganges. Então, nenhuma perturbação existe, e você pode amar sem qualquer condição. Então você pode amar sem tornar-se dependente, sem fazer da outra pessoa dependente de você. Assim, o amor pode ser uma liberdade.
A palavra “solidão” não é boa porque carrega em si uma tristeza – por sua causa, não por causa da palavra. Por causa das velhas associações, você sempre se sente triste quando está sozinho.
Lembre-se disto: quando você chegar ao âmago do seu centro, você não estará solitário, estará só! Essa solidão não é um vazio – é um preenchimento. Essa solidão não é vazia, é transbordante. Essa solidão não é um vácuo, é o Todo.
Tudo que o mestre pode fazer é torna-lo alerta para este fato; ele apenas o acorda para a verdade – o tesouro está escondido aí – e você nunca olhou para ele. Seu Ser já é iluminado!

Se você não pode olhar para dentro e ver a escuridão em que está vivendo, a escuridão da mente... Eu lhe darei uma vela para encontrar seu caminho.

Conta-se que Buda falou que os Budas só mostram o caminho – você é que tem de caminhar. Eles não podem ir com você, pois é impossível outra pessoa leva-lo ao seu centro. Os Budas apontam o caminho, mas você é que tem de caminhar.

Quando a mente é aberta você se ilumina, mas sua mente cria sua própria prisão. A mente é um fechamento, a mente é uma porta fechada. O ser é uma porta aberta – esta é a única diferença. Quando a mente se abre, você se ilumina – você é um ser. Quando a mente se fecha – você é apenas um passado, uma memória, não uma vida, uma força viva. Com a mente fechada, você pode olhar apenas para fora porque como olhará pra dentro? A mente está fechada, a porta está fechada. Com a mente aberta você pode olhar pra dentro.
E ao olhar pra dentro você é totalmente transformado. Se você tiver um único vislumbre do interior, nunca mais será o mesmo. Então, poderá caminhar, poderá olhar pra fora e andar no mundo – poderá ser um comerciante, poderá ser um funcionário, poderá ser um professor, um açougueiro – você pode ser tudo que era antes – mas a qualidade terá mudado.
Os mestres dizem que um home iluminado vive do mesmo modo que um homem comum – sem nenhuma diferença exterior. Come quando sente fome, dorme quando sente cansaço – no exterior, nenhuma diferença. Apenas a natureza do ser, a qualidade do ser é que muda – Se sua mente está aberta, você pode olhar pra fora, mas nesse estado permanece dentro. Você pode andar pelo mundo, mas o mundo não é parte do seu ser. Pode fazer qualquer coisa que seja necessária, mas nunca fica apegado.

O Zen diz que a mente comum é a mente iluminada, com apenas uma diferença: a mente está aberta, acordada. O sono se foi, a inconsciência se foi. Você está alerta.