7 de abr de 2015

A filosofia não resolve nada I


Hoje começamos com uma pequena história

Mestre Tozan – um mestre Zen – estava pesando linho no armazém
Um monge aproximou-se dele e perguntou. O que é Buda?
Tozan disse: “Este linho pesa dois quilos”.

Vamos tentar entender... Buda era absolutamente contra a filosofia. Através de sua própria experiência, ele veio a entender que todas as profundezas da filosofia são apenas superficiais. A filosofia não resolve nada. Mesmo o maior filósofo permanece tão comum quanto qualquer um. E o cerne, o núcleo da questão é que a mente é uma faculdade questionadora: ela pode fazer qualquer tipo de pergunta, e então pode se enganar respondendo-as.
Perceba... A ignorância gera perguntas e a ignorância cria respostas. Quando não existe mente você é um ser experienciando; quando a mente existe você é um ser verbalizando.
Numa pequena escola aconteceu: havia uma criança muito burra, ela nunca fazia nenhuma pergunta e a professora também não dava atenção a ela. Mas um dia ela ficou muito animada quando a professora estava explicando um determinado problema de aritmética, escrevendo alguns números na lousa. Ela queria perguntar algo. Quando a professora terminou o problema, ela apagou os números na lousa e ficou muito feliz vendo que, pela primeira vez, essa criança estava querendo perguntar alguma coisa, e ela disse: “Estou feliz que queira perguntar alguma coisa. Vá em frente, pergunte”!
A criança ficou de pé e disse: “Estou muito preocupado, e a pergunta não parava de vir à minha cabeça, mas eu não conseguia coragem para perguntar. Hoje eu decidi perguntar: “Para onde é que essas drogas de números vão quando a senhora os apaga”?
Perceba, a questão é muito filosófica, todas as perguntas são assim. Muitos perguntam para onde vai um buda quando morre, mas a pergunta é a mesma. Onde está Deus? A pergunta é a mesma. Qual é a verdade? A pergunta também é a mesma. Mas você não pode sentir a idiotice escondida nelas, porque elas parecem muito profundas, e essas perguntas têm uma longa tradição – as pessoas as fazem desde sempre, e pessoas que você acha maravilhosas têm se preocupado com elas: teorizando, encontrando respostas, sistemas de criação... Mas todo o esforço é inútil, porque só a experiência pode lhe dar a resposta, não o pensar. E se você continuar pensando, você vai ficar cada vez mais louco, e a resposta estará ainda mais longe – mais longe do que nunca.
Buda diz: Quando a mente para de questionar, a resposta acontece. É porque você está tão preocupado com as perguntas que a resposta não pode penetrar em você. Você está com um problema tão grande, você está tão perturbado, tão tenso que a realidade não pode entrar em você – você está tremendo tanto por dentro, tremendo de medo, com a neurose, com perguntas e respostas, com sistemas, filosofias, teorias; você está entupido de coisas. Mude o padrão... Esvazie-se um pouco... Esvazie a sua mente um pouco...
Quando você está em silêncio e imóvel, então a realidade acontece. Questionar significa que você não confia em nada – tudo se tornou uma pergunta, e quando tudo se torna uma pergunta existe muita ansiedade. Você já observou a si mesmo? Tudo se torna uma pergunta.
Quando a meditação é mais profunda e as pessoas têm vislumbres, elas me procuram muito perturbadas porque elas não podem acreditar que esta felicidade está acontecendo a elas. Elas não podem acreditar que conseguem ficar em silêncio – impossível.
A confiança não é possível para uma mente questionadora. E assim que ocorre uma experiência a mente cria uma pergunta: Por quê?
Você gostaria que todas as suas perguntas fossem respondidas antes de dar um passo no desconhecido. Mas como posso dizer? Só pode ser dito em palavras o que você já conhece. Como posso dizer que existe uma luz, se você sempre viveu na escuridão? Se os seus olhos estão acostumados apenas com o escuro, como eu posso explicar a você que o sol nasceu?
E você vai perguntar: “O que você quer dizer? Você está tentando nos enganar. Vivemos a vida toda e não conhecemos nada sobre a luz. Primeiro responda nossas perguntas, e então, se estivermos convencidos, podemos sair com você, caso contrário parece que você está nos desviando do caminho, nos desviando de nossa vida protegida”.
Mas como a luz pode ser descrita se você não sabe nada sobre ela? Mas é justamente isso o que as pessoas estão pedindo: “Convença-nos sobre a divindade, então vamos meditar, então vamos buscar. Como vamos sair em busca, quando não sabemos para onde estamos indo”?
Isso é desconfiança – e por causa dessa desconfiança você não consegue avançar rumo ao desconhecido. O conhecido se apega a você e você se apega ao conhecido – e o conhecido é o passado morto. Ele pode até parecer aconchegante porque você viveu nele, mas ele está morto, ele não está vivo.

A mensagem que fica hoje é: A vida é sempre o desconhecido batendo a sua porta. Siga com ela – siga com a vida.
Então por alguns instantes viva a experiência do momento presente – sem perguntas, sem respostas – um simples vazio preenchido de bênçãos...

Um comentário:

  1. Quantos de nós se esforçam para acalmar a mente inquieta? Para isso, lançamos mão de psicólogos, psiquiatras, medicamentos, entorpecentes, bebidas alcoólicas ou técnicas de meditação e conselhos de mestres Zen. Mestres espirituais levam vidas inteiras dominando a mente para atingir um estado de ócio contemplativo livre das preocupações mundanas e perfeita comunhão com a natureza que o cerca. Algo que qualquer vaca faz sem nenhum esforço enquanto pasta. Damos uma longa volta para chegarmos onde já estaríamos se não fosse nossa dita "excepcional" capacidade de pensar e questionar sobre tudo em busca de respostas. Nossa celebrada capacidade intelectual seria uma dádiva ou um castigo? Qual a utilidade dela além de buscar respostas que não existe, criar objetos que não precisamos, fazer cálculos que não nos interessam e tentar entender um Deus que não é inteligível por viais racionais? Temos um órgão que nos afasta da essência da vida. Um castigo que os animais não precisam carregar. Uma involução de nossa espécie.

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