2 de dez de 2013

Ser miserável ou estático



Um velho estava fazendo cem anos e no dia do seu aniversário, perguntaram-lhe por que ele estava sempre feliz. Ele respondeu: toda manhã, quando levanto, posso escolher se serei feliz ou infeliz e eu escolho ser feliz.
Por que costumamos escolher a infelicidade?
Por que nunca estamos conscientes da escolha?

Este é um dos problemas mais complexos da vida humana. E ele tem de ser profundamente analisado. Porque ele não é teórico – diz respeito a você.
Perceba, é assim que todo mundo está agindo – sempre escolhendo o errado, sempre escolhendo a tristeza, a depressão, a miséria. Deve haver razões profundas para isso – e há.
Primeira coisa: o modo como os seres humanos são criados representa um papel muito preciso nesse estado. Se você está infeliz, ganha alguma coisa com isso, sempre ganha. Se está feliz, sempre perde.
Desde o nascimento, uma criança perceptiva começa a sentir a distinção. Se ela está infeliz, todo mundo fica simpático; ela sempre ganha simpatia. Todo mundo tenta ser amável; ela ganha amor. E até mais que isso; se está infeliz, todo mundo fica atencioso, ela ganha atenção.
E a atenção funciona como um alimento para o ego; como um estimulante alcoólico. Ela lhe dá energia; você sente que é alguém. Daí tanta necessidade, tanto desejo de obter atenção.
Se todos o estão olhando, você se torna importante. Se ninguém o está olhando, você sente como se não existisse. Quando as pessoas olham para você, quando se preocupam com você, elas lhe dão energia.
Tente entender: o ego existe no relacionamento. Quanto mais as pessoas lhe dão atenção, mais ego você obtém. Se ninguém olhar, o ego se dissolverá.
Desde o nascimento, a criança aprende a ser política. A política é: pareça miserável – assim obterá simpatia, todos serão atenciosos. Pareça doente – você se tornará importante. As crianças doentes ficam ditatoriais: toda a família tem de obedecê-las – seja lá o que for que digam é lei.
Quando a criança está feliz, ninguém a ouve. Quando está saudável, ninguém se importa com ela. Quando está bem, ninguém lhe dá atenção. Perceba: desde o nascimento começamos a escolher a miséria, a tristeza, o pessimismo, o lado mais escuro da vida. Isto é um fato.
Outro fato é: sempre que você está feliz, sempre que se sente em êxtase e abençoado, todo mundo o inveja.
Inveja significa antagonismo; ninguém fica amigável, todos são inimigos. Assim, você aprendeu a não ficar em êxtase, aprendeu a não demonstrar sua felicidade, a não rir.
Olhe para as pessoas quando riem. Elas riem muito calculadamente. Não é uma gargalhada – não vem de dentro do ser. As pessoas, primeiro, olham para você, depois julgam... E então elas riem. Mas riem até certo ponto – até o ponto em que não serão levadas a mal.
Que loucura... Até mesmo nossos sorrisos são políticos. A risada desapareceu, a felicidade tornou-se completamente desconhecida, e estar em êxtase é quase impossível, porque isso não é permitido.
Se você estiver miserável, ninguém pensará que é louco. Se estiver dançando em êxtase, todos pensarão que é louco. A dança é reprimida, o canto não é aceito. Um homem está feliz – e nós pensamos que algo está errado.
Que tipo de sociedade é esta? Se uma pessoa se sente miserável, tudo bem; ela está ajustada, porque a sociedade inteira é mais ou menos miserável. Ela nos pertence. Mas se alguém entra em êxtase, e sai dançando e cantando por aí, pensamos que está ficando louco, insano. Ele não nos pertence – e sentimos inveja.
Por causa da inveja, nós os condenamos. Por causa da inveja, tentamos de todas as maneiras trazê-lo de volta a seu velho estado – e chamamos este velho estado de “normal”. Os psicanalistas começam a ajudar, os psiquiatras ajudam a trazer esse homem para a miséria normal.
É por isso que no Ocidente, toda a sociedade é contra os psicodélicos. A lei, o estado, o governo, os padres, o papa – todos estão contra. Mas eles não estão, na verdade, contra os psicodélicos – estão contra as pessoas que estão em êxtase. Não são contra o álcool, não são contra as drogas, mas são contra os psicodélicos, porque os psicodélicos podem criar uma mudança química em você. E a velha crosta que a sociedade criou ao seu redor, o aprisionamento na miséria, pode ser rompido, pode haver uma abertura de caminho. Você pode sair disso, mesmo que por apenas uns poucos minutos, e ficar em êxtase.

E se as pessoas ficarem em êxtase, toda sociedade terá de mudar – porque a sociedade está baseada na miséria.

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