15 de mai de 2013

Meios e fins II



Sutra:
Onde posso encontrar um homem
Que se esqueceu das palavras?
É com ele que
Eu gostaria de conversar

Um homem que se esqueceu das palavras, com ele vale a pena conversar, porque ele tem a realidade mais íntima, o centro do ser dentro dele. Ele tem a mensagem - seu silêncio é fecundo. A conversa é impotente. O que você está fazendo quando está falando? Você não está dizendo nada especial. Você não tem nenhuma mensagem, não há nada para ser transmitido. Suas palavras são vazias, elas não carregam nada. Elas são apenas símbolos. E, quando você está falando, está simplesmente jogando fora o seu lixo. Pode ser uma boa catarse para você, mas, para o outro, pode ser perigoso.
Como você pode conversar com uma pessoa que está repleta de palavras? Impossível. As palavras não dão espaço, as palavras não dão qualquer abertura. As palavras são excessivas, você não consegue penetrar.
Falar com um homem que está repleto de palavras é quase impossível. Ele não pode ouvir, porque, para ouvir, uma pessoa precisa ficar em silêncio, para ouvir, uma pessoa precisa estar receptiva. As palavras não permitem isso – as palavras são agressivas, elas nunca são receptivas.
Perceba... Você se sente bem depois de um bom mexerico. Você se sente bem porque fica aliviado, o seu falar é parte das suas tensões. Ele não está vindo de você, é apenas uma perturbação. É por isso que sempre que você fala, você simplesmente aborrece o outro. Mas por que ele está ouvindo? Ele não está ouvindo, ele está apenas esperando para aborrecer você, esperando apenas o momento certo, quando ele pode tomar as rédeas em suas mãos.
Quando você vai perceber isso? Por que uma pessoa é um aborrecimento? Porque o que ela diz são apenas palavras, não há nenhum peixe nela, apenas armadilhas – inúteis, sem sentido, não há nenhum conteúdo. É como o ruído de alguma coisa, um barulho, sem nenhum significado.
Se você puder encontrar um homem que esteja em silêncio e persuadi-lo a falar com você, você vai ganhar muito – porque quando a mente não é preenchida com palavras, o coração fala ao coração. Quando tudo vem do silêncio, quando uma palavra nasce do silêncio, ela é linda, ela é viva, ela compartilha algo com você. Quando uma palavra só vem de uma multidão de palavras, ela é louca, pode enlouquecer você.
Ouvi contar...
Um menino de cinco anos foi questionado por seu professor: “A sua irmã mais nova já aprendeu a falar?
O menino disse: “Sim, ela aprendeu a falar. E agora estamos ensinando-a a ficar quieta”.
Essa é a tristeza. Você tem de ensinar palavras, faz parte da vida, e então a pessoa tem que aprender a ficar em silêncio, como viver sem palavras. Universidades, pais, professores, eles ensinam palavras, e então você tem que encontrar um mestre que possa lhe ensinar como ficar em silêncio.
Um estudioso alemão procurou Ramana Maharishi e disse: “Eu vim de muito longe para aprender alguma coisa com você”.
Ramana riu e disse: “Então você veio ao lugar errado. Vá para alguma universidade, procure algum estudioso, algum grande sábio, então você poderá aprender. Se você vier a mim, então fique ciente de que a aprendizagem não é possível aqui, ensinamos apenas a desaprender. Eu posso ensiná-lo como desaprender, como jogar palavras fora, para criar espaço dentro de você. E esse espaço é divino, esse espaço tem religiosidade”.
Onde você empreende a sua busca – nas palavras, nas escrituras? Então, um dia desses você vai se tornar ateu. Um erudito, um estudioso, não pode continuar a ser um teista por muito tempo. Lembre-se, por mais que ele saiba, o que quer que ele saiba sobre a Bíblia, o Alcorão e o Gita, o estudioso tende a se tornar um ateu, porque essa é a consequência lógica de se reunir palavras. Mais cedo ou mais tarde ele vai perguntar: “Onde está Deus? Nenhuma Bíblia pode responder, nenhum Gita pode fornecer a resposta. Ao contrário, quando Bíblias, Gitas e Alcorões são demais em sua mente, você perde o divino – porque todo o espaço em você está entulhado de móveis. Deus não pode se mexer ali, não consegue fazer contato com você se a mente está entulhada de palavras. Então, é impossível escutar, e se você não pode ouvir, como pode orar? É impossível esperar, as palavras são muito impacientes, elas estão batendo lá dentro, ansiosas para sair.
Perceba... Se sua mente está sobrecarregada de palavras, teorias, escrituras, elas não vão para de bater. “Abra! Queremos sair!” E quando você quer sair, Deus não pode entrar. Se a mente quer sair, não está aberta para nada que esteja entrando. Ela está fechada, é uma via de mão única – o tráfego nos dois sentidos não é possível.
Quando você é agressivo por meio das palavras que saem, nada pode penetrar em você, nem o amor, nem a meditação, nem a existência. E tudo que é belo acontece como um processo de interiorização. Quando você está em silêncio, sem palavras querendo sair, quando você está esperando... Nesse momento de espera, a beleza acontece, o amor acontece, a devoção acontece, a divindade acontece. Mas, se um homem é muito viciado em palavras, ele vai perder tudo. No final ele vai ter uma longa coleção de palavras e teorias, lógica, tudo – mas nada vale a pena porque está faltando conteúdo.
Você tem a rede, a armadilha, mas não há nenhum peixe lá. Se você tivesse realmente capturado o peixe, você teria jogado fora a rede imediatamente. Quem se importa com a rede? Se você já usou a escada, pode esquecê-la. Quem pensa na escada? Você transcendeu, ela foi usada.
Assim, sempre que um homem realmente passa a saber, o conhecimento é esquecido. Isso é o que chamamos de sabedoria. Um homem sábio é aquele que foi capaz de desaprender o conhecimento. Ele simplesmente abandona tudo que não é essencial.

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