10 de dez de 2016

Vindo da estrada esburacada VII


O mestre Zen diz:
Todos os pecados cometidos
Nos Três mundos
Se dissolverão e desaparecerão
Comigo

Os Três mundos são os mundos do passado, do presente e do futuro – o mundo do tempo. Esse sutra é de um significado revolucionário imenso.
No momento em que você souber que você não é, então tudo o que você fez no passado, está fazendo no presente ou fará no futuro também desaparecerá. Quando aquele que faz desaparece, os feitos também desaparecem.
No Oriente, as pessoas se preocupam muito com carmas e ações. Elas ficam com muito medo, pois têm de pagar e sofrer por todas as coisas ruins que fizeram no passado.
E o mestre Ikkyu diz: “Não tenha medo, pois você não é; portanto, você não fez coisa alguma!”
Assim, a única coisa é penetrar fundo em você mesmo e perceber o seu nada. Você não precisa fazer coisas boas para contrabalançar as coisas más que fez. Você não precisa se esforçar em fazer boas ações, pois faça você o bem ou o mal, você permanece na ilusão de um executante. Perceba a diferença!
Normalmente, as religiões ensinam a ser moral, fazer o bem e evitar os pecados. Lembre-se daqueles dez mandamentos – eles compõem a religião ordinária: não faça isso, faça aquilo. A religião extraordinária diz: desapareça como o autor, não se incomode a respeito de fazer o bem ou o mal. E quem sabe o que é bom e o que é mau?
Na verdade, nada é bom e nada é mau, pois a existência é uma – como pode haver duas? Tudo é um. O bom transforma-se em mau, o mau transforma-se em bom, e a gente nunca sabe o que é o quê. As coisas continuamente estão se transformando umas nas outras. Você pode observar...
Você estava fazendo algo bom e resultou em algo mau. Uma mãe tenta proteger seu filho de todas as coisas ruins do mundo e, justamente porque ela o está protegendo, ela o está forçando a entrar nelas, pois ela está criando a tentação.
Lembre-se da velha história: Deus disse a Adão para não comer desta árvore, e criou a tentação. Ele deve ter sido um bom pai, e destruiu o filho. Ao dizer “Não coma da Árvore do Conhecimento”, ele criou a tentação e o desejo, o desejo irresistível de comer daquela árvore.
Ora, ele queria fazer o bem, mas o que aconteceu? O pecado original surgiu.
Todas as pessoas que ficam fazendo coisas boas provam ser muito nocivas; os benfeitores são as pessoas mais nocivas do mundo, e o mundo sofreu muito com elas; suas intenções são boas, mas suas compreensões são nulas. E apenas boa intenção não serve pra nada.
Aqueles que compreendem dizem que não se trata de uma questão de bom e mau, mas de uma questão de desaparecimento do autor. Ou podemos dizer desta maneira: permanecer como autor é mau; desaparecer como autor é bom. Não ser é virtude; ser é pecado.
Este é o entendimento de Buda. Todos os nossos atos são apenas sonhos, e quando a pessoa se torna desperta ela simplesmente começa a rir: todo o mal e todo bem foram apenas sonhos.

Escute esta história:
Havia certa vez um trabalhador que detestava café; contudo, sua esposa não sabia disso, pois ele nunca dissera. Ela adorava café e ficava muito feliz ao colocar uma garrafa térmica de café na sua trouxa de almoço, todas as manhãs.
Ele sempre levava a trouxa e a garrafa térmica para o trabalho, mas, sendo um homem econômico, à noite trazia a garrafa cheia de volta pra casa. Então, para economizar e porque sua esposa adorava café tanto quanto ele o detestava, ele despejava o café no bule quando ela não estava vendo. E ele recusava o café da noite com a desculpa de que atrapalhava seu sono.
Numa noite, a esposa sonhou que seu marido lhe era infiel e, na noite seguinte, ela teve o mesmo sonho. Isso a deixou furiosa, mas ela não disse nada. Cerca de uma semana depois, o sonho ocorreu pela terceira vez, causando-lhe muito ciúme e angústia.
“É verdade”, pensou ela. “Deve ser verdade, o verme é infiel a mim”! Assim ela decidiu se vingar, e o fez ao colocar todas as manhãs uma pitada de arsênico na garrafa térmica dele, até que ela morreu.
No julgamento do marido, o juiz disse: “É sempre assim, aqueles que acreditam no sonho assassinam a si mesmos”.

E o maior dos sonhos é “Eu sou” – e este se tornou nosso suicídio. A ideia “Eu sou” provou ser muito suicida. E se você desaparecer como um eu (ego), se você cometer este suicídio espiritual, pela primeira vez você começará a viver, nascerá para a vida eterna e conhecerá algo que não é temporal.
E então, nessa consciência desperta, não há nada bom e nada mau. Então a pessoa come quando tem fome, dorme quando está cansada, responde quando uma questão é levantada. A pessoa não tem ideia de como viver e vive sem mente. A pessoa vive com nada dentro de si. Viver como nada é nirvana; é dissolver-se na existência – na eternidade.

Texto publicado em junho de 2011 e modificado em dezembro de 2016

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